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“Somos seres natimortos e, aliás, há muito tempo não nascemos de pais vivos,

 o que cada vez mais nos agrada.”

 Notas do Subterrâneo – Dostoievski

 

 Escrever sobre trabalhos artísticos, resenhar, whatever, para mim, ergue-se sobre um curioso fundamento: as polaridades. O que significa dizer que só vale a pena escrever sobre algo que gostei muito ou que odiei muito. O livro Manual da Destruição do escritor, diretor e dramaturgo Alexandre Dal Farra, situa-se na primeira polaridade. Não. Não é um livro fácil. E muitas vezes me vi perguntando enquanto o lia “como isso aqui vai acabar?”. E a resposta, hoje sei, é: acaba acabando. Tudo. A nossa louvável Bossa Nova, Belém do Pará, Itanhaém, a selva amazônica, as mulheres bonitas, os ecologicamente comprometidos, os velhos, as tentativas de inclusão social, a família, todo e qualquer rosto. Tudo. Imensa fidelidade ao título. Acredito, por puro esmero fenomenológico, que a melhor maneira de falar sobre algo, é deixar o algo falar. Ou, se lembrar o Heidegger na Origem da Obra de Arte, é deixar a coisa, coisar:

“mais uma hora esperando no saguão gigantesco da porra do aeroporto, onde as pessoas ficam procurando ser elas mesmas para garantir que não se tornem outras ao chegarem nos lugares para onde vão!(…) as pessoas são amontoados de órgãos sem nenhuma conexão que os conecte de maneira orgânica, cada ser humano de merda é um saco de órgãos que não se entendem entre si e procuram, cada um dos órgãos, o melhor para si mesmo, ainda que isso passe por cima dos outros órgão de merda.” 

Sim. Deixar a coisa coisar, mas não sem a ajuda de gigantes como o Deleuze que em seu abecedário alerta ser o escritor um criador de perceptos, que seriam percepções e sensações que vão além daquele que as sentem. Eureka: é isso que faz todo o tempo o protagonista deste Manual. Porque são incontáveis as vezes em que se conjuga os verbos ver, ouvir, sentir

ouvi o barulho da porrada sem noção do caralho que o mendigo tomou na cabeça, e senti os meus pés presos no chão. senti o corpo petrificado e ouvi o barulho da porrada no mendigo e senti a tristeza nos ossos do meu peito. vi o mendigo retomar o prumo…”

demonstrando uma hipersensibilidade que explode em revolta e se converte num radar impiedoso que capta tudo o que é simulacro, construído, inautêntico, fabricado, domesticado resultando numa vontade de levar todos ao limite – morada indubitável do protagonista – numa indignação social quase cósmica que melhor seria nomeá-la de Revolta Ontológica. Revolta de um pulsante e sensível olhar de alguém para quem uma música não toca, mas “grita e espanca a cabeça”, alguém que “sente o peso do sol” e tem “um grito afogado dentro da traquéia” e assim sai, descrente de ainda poder encontrar “parceiros de reclamação” vertendo a humanidade em “defuntos vivos”, em “vacas sentadas em seus carros”, em hienas e segue “amaciando o mundo e suas instituições sanguinárias a  pauladas”. Aquele que, decidido a “guiar na direção inversa”, absolutamente impaciente com a passividade alheia, observa a humanidade da mesma forma como observa um porco, num fabuloso trecho do livro, onde diz “ele (o porco) era indiferente ao que estava a sua frente, apenas observando as coisas de maneira a poder comê-las”, aquele que “sem nenhuma possibilidade de se mover”, que “tem as palavras ódio, desespero e vergonha tatuadas no cérebro”, escolhe (escolhe?) “explodir em autoagressão”, não sem dor, vale elucidar.

O Manual da Destruição é um livro situado na contraditória e trepidante posição, só alcançada em alto grau literário, que, ao negar a vida, termina por afirmá-la. Contraditória porque (eu vou falar uma loucura agora) ao terminar de ler o livro e ao lembrar o sublime trecho em que o protagonista recorda o instante em que sua avó entrega-lhe um fatia de bolo, me veio a palavra Ternura… Mas, voltando à sanidade, Alexandre Dal Farra, na lucidez destrutiva do seu Manual, dispensa penduricalhos referenciais, mas certamente tem algum parentesco com indomáveis como o Gombrowicz, Juliano Pessanha, Cioran, Artaud (os que me ocorrem agora…) Porque foi impossível não lembrar, com todo respeito aos estilos e singularidades de cada um, de Dostoievski e sua escrita ferina, não-ressentida e interventiva. Pois, em seu livro de estréia, Alexandre Dal Farra termina por entoar, para mim, uma ácida e louvável (porque rara em nosso adocicado mundo atual) Nota Subterrânea contemporânea que merece ser aplaudida de pé. Então, ainda no timbre, digamos, pouquíssimo polido da obra, não liguem para essa resenhazinha de merda do caralho e, caso tenham coragem (um terço da que foi necessária para escrevê-lo), leiam o livro que sustenta o tom corrosivo da primeira a última letra. Mas alerto: não vai sobrar nada, caro leitor. Nem você.

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A Coisa Mesma (um certo quarto)


Duas manchas conversam grudadas num fundo branco, enquanto um copo de vodka, apoiado sobre a cama, beija uma borda antes da queda. O piso é o suporte de duas cadeiras de pernas pretas, finas, que se escondem sob a mesa que imita madeira, tão falsa como a luz que ora é uma, ora é outra e assim não me deixa ver seu olho azul enegrecido de oceano fundo. Oceano que é e não é ao mesmo tempo o chão, o teto e as paredes deste quarto um tanto casa, cada vez que você chega e apoia suas tralhas de mochila ao lado dos trecos da minha bolsa. O quarto e sua luz desgovernada, o chuveiro com defeito porque frio. Podemos trocar de quarto? Não. Agora já desembrulhamos nossas coisas, já desembrulhamos a gente, seu bong, meu maço de cigarros e toda essa fumaça já se fundiram há muito ao verde, vermelho, azul, amarelo dessa luz que alterna ao som do David Lynch, The Big Dream… Num canto, o telefone branco (o período encerra em trinta minutos, senhora), noutro, um menu de papelão, altivo, em pé sobre a mesa forrada de vidro e de quinquilharias castanhas de cajú, preços do sex shop. A bolsa de matelassê, verde, aberta, no ângulo oposto à sua carteira que lembra um pedaço da minha roupa. E há um saco com mini-sabonetes engalfinhados com pastas de dentes minúsculas… Tudo isto dito assim: o banheiro com luz apagada, a cortina com bainhas feitas à mão, a calça pendida na cadeira, o balde de lixo aguardando os próximos dejetos… E eu e você (enquanto ainda nos resta alguma sanidade) escrevendo feito loucos deitados numa cama tentando alcançar a coisa, enquanto ela, a coisa mesma, dorme num guardanapo asfixiado dentro de um copo.

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